domingo, 3 de março de 2013

I missed u

Essa é a pior coisa que poderia acontecer. Morar na casa dele. Devo ser sincera e dizer que não era de um todo ruim, exceto a parte em que ele me joga na cara o quão detestável é minha presença.

“Você tem certeza que isso é uma boa ideia?” perguntei à Mirna.
“Quando foi que tive más ideias?” ela retrucou,
Olhei bem fundo nos olhos dela, deixando claro que estava listando todas às vezes.
“Você tem certeza que quer ouvir isso?” indaguei.
Minha irmã não fazia ideia de quanto ela já me sacaneou. Não mesmo, mas ela sabia que eu sabia cada uma das vezes por ordem alfabética, de data e de tamanho do caos que causou.
Ela diz que isso é extremamente rancoroso da minha parte, mas essa é a única arma que tenho para obriga-la a se manter na linha (o que quase nunca consigo). Fico imaginando se aquelas três horas de diferença entre nossos partos teve tamanha importância para nossas personalidades (sem contar as diferenças físicas).
A única coisa que me agrada é minha pele. É tudo que herdei da minha mãe. Algumas vezes ela fazia questão de me lembrar disso. Não com palavras, mas através de olhares, de gestos e afins. Sempre me lembrando de que sou uma aberração da natureza que nunca deveria ter existido.
Ela tentou me amar, eu sei que tentou, mas no final das contas todo esse peso foi forte demais pra ela. Por isso ela foi embora um pouco depois do meu aniversário de sete anos. Não que isso tenha sido um trauma, mas foi bem desagradável acordar no meio da noite com seus pais discutindo sobre abandono e blá, blá, blá.
         Mirna ficou arrasada na época, o Heinrich, meu pai-drasto também. Eles eram muito dependentes dela, enquanto pra mim ela nunca fez falta, assim como o namorado de quem ela engravidou.
         Tornei-me o elo forte da família e mantive (ou tentei manter) ela de pé até meu padrasto, que supostamente estava fazendo o melhor pra mim, me mandar pra um internato feminino em outro país. Mirna teria ficado em casa, mas éramos muito ligadas na época e por isso ela também foi chutada de casa. Não posso culpar Heinrich, ele foi quase um santo cuidando das filhas da esposa que o abandonou. Ele disse que não era bom que duas meninas vissem o pai mergulhado em bebida, mas eu sei o verdadeiro motivo.
         Por fim, mas não menos importante: o internato... passei os piores anos da minha vida naquele inferno, mas sobrevivi e isso é muito importante.
“No que está pensando?” Mirna perguntou, de repente.
“Nada de especial, acho” respondi.
Ela entendeu que eu estava pensando em algo triste, pois nunca compartilho esse tipo de pensamento com ela.
“O que faremos” perguntei “agora que chegamos a Arittanea?”
“Realmente não sei” respondeu “Normalmente é você quem faz os planos”
Mirna é um pouco preguiçosa quando se trata de planejar. Ela pensa no que pode acontecer nos próximos dois dias quando se esforça e vale deixar nota que ela fez isso uma única e inacreditável vez.
Ouvi passos em nossa direção, pensei que era Pietro vindo me encher o saco, mas era Lia, sua irmã, avisando que se não fossemos pra mesa em cinco nano segundos seriamos o almoço do dia seguinte.
Nunca corri tanto na minha vida. Na hora Lia achou engraçado como foi fácil nos convencer, mas ficou roxa de raiva quando lembrou que estávamos com os pés completamente sujos.
Corrigindo o inicio do paragrafo anterior: eu pensei nunca ter corrido tanto na minha vida até correr da Lia com uma colher de pau na mão.
O mundo parecia virado ao contrario agora todos eram agradáveis comigo e com minha irmã, na nossa infância isso era um pouco diferente: ninguém era agradável comigo. Nunca tentaram falar comigo ou menos sentar perto de mim. Em contrapartida Pietro estava sempre do meu lado.
É tão engraçado e confuso ver o ditado ‘o mundo dá voltas’ se realizando de tal forma diante dos meus olhos. Provavelmente eles estão sendo agradáveis agora por que sou órfã, mas isso não muda os fatos.
Isso me lembra um pouco minha estadia na França. Eu não queria ir, mas Mirna insistiu tanto que acabamos passando por lá. Não tenho nada contra aquele país magnifico, mas ser o ‘lar’ do meu progenitor é demais pra mim. Também sei que o país nada a ver com isso, mas evito passar perto da França mesmo assim.

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